sexta-feira, 24 de junho de 2011

Crítica: "Cisne Negro"

Em “Cisne Negro”, a personagem de Natalie Portman confronta por diversas vezes seu reflexo, mas nunca a imagem refletida faz jus à sua aparência. Os espelhos, onipresentes nas salas de ensaio e no pequeno apartamento onde a bailarina Nina Sayers mora, pontuam a dualidade de sua psique: logo, a artista é forçada a fazer emergir sua personalidade mais voraz, principalmente quando interpretará Odile na montagem de “O Lago dos Cisnes”. E justamente o espelho, convertido em objeto, vidro, será determinante para anular a coexistência entre da Nina “real” com a Nina “reflexo”.

Esse é o grande mote do filme dirigido por Darren Aronofsky. “Cisne Negro” não é sobre balé, e até por isso causou certa polêmica entre os profissionais da dança por apresentar uma visão não muito simpática da arte. “Cisne Negro” é sobre personalidades, temores e (principalmente) o dilema humano de manter encarcerada sua verdadeira natureza porque esta seria inadequada para viver à sociedade.

A obsessão é tema frequente de todos os filmes de Aronofsky. Seja o matemático do controverso “Pi”, os quatro sonhadores viciados de “Réquiem Para um Sonho”, o cientista de “Fonte da Vida” ou o ex-lutador em atividade de “O Vencedor” – todos os protagonistas busca a superação física e mental para alcançarem seus objetivos. E todos sofrem essas consequências dessa traumática busca.

Nina Sayers, que com méritos deu o Oscar para Natalie Portman, não foge à regra. No fundo, a bailarina nem sabe exatamente o porquê de querer tamanho virtuosismo técnico, nem que seja para seguir a carreira da mãe (Barbara Hershey). Mas somente essa qualidade não basta para ela interpretar as duas personagens de “O Lago dos Cisnes”, o cisne branco Odete e negro Odile, vividas pela mesma bailarina justamente para ressaltar o caráter dúbio da obra de Tchaikovsky. E, neste caso, também da obra de Aronofsky.

Só por despertar essas questões, “Cisne Negro” mereceria uma atenção especial. Não é nem de longe o filme mais denso e pesado de Aronofsky, e por vezes exagera na ânsia de impressionar o espectador, principalmente no momento de delírio de Nina. Ainda assim, trata-se de um belo estudo de personagem e uma marcante metáfora sobre o extenuante processo criativo de um artista.

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